Vivemos aparentemente na era do respeito pelos direitos
humanos, mas, por desconhecermos o teatro da nossa mente, não
percebemos que jamais esses direitos foram tão violados nas
sociedades democráticas. Estou falando de uma terrível ditadura que
oprime e destrói a auto-estima do ser humano: a ditadura da beleza.
Apesar de serem mais gentis, altruístas, solidárias e tolerantes do que
os homens, as mulheres têm sido o alvo preferencial dessa dramática
ditadura. Cerca de 600 milhões de mulheres sentem-se escravas dessa
masmorra psíquica. É a maior tirania de todos os tempos e uma das
mais devastadoras da saúde psíquica.
O padrão inatingível de beleza amplamente difundido na TV,
nas revistas, no cinema, nos desfiles, nos comerciais, penetrou no
inconsciente coletivo das pessoas e as aprisionou no único lugar em
que não é admissível ser prisioneiro: dentro de si mesmas.
Tenho bem nítida na mente a imagem de jovens modelos que,
apesar de supervalorizadas, odiavam seu corpo e pensavam em desistir
da vida. Recordo-me de pessoas brilhantes e de grande qualidade
humana que não queriam freqüentar lugares públicos, pois se sentiam
excluídas e rejeitadas por causa da anatomia do seu corpo.
Recordo-me dos portadores de anorexia nervosa que tratei.
Embora magérrimos, reduzidos a pele e ossos, controlavam os
alimentos que ingeriam para não "engordar". Como não ficar
perplexo ao descobrir que há dezenas de milhões de pessoas nas
sociedades abastadas que, apesar de terem uma mesa farta, estão
morrendo de fome, pois bloquearam o apetite devido à intensa
rejeição por sua auto-imagem?
Essa ditadura assassina a auto-estima, asfixia o prazer de viver,
produz uma guerra com o espelho e gera uma auto-rejeição profunda.
Inúmeras jovens japonesas repudiam seus traços orientais. Muitas
mulheres chinesas desejam a silhueta das mulheres ocidentais. Por
sua vez, mulheres ocidentais querem ter a beleza incomum e o corpo
magríssimo das adolescentes das passarelas, que freqüentemente são
desnutridas e infelizes com a própria imagem. Mais de 98% das
mulheres não se vêem belas. Isso não é uma loucura? Vivemos uma
paranóia coletiva.
Os homens controlaram e feriram as mulheres em quase
todas as sociedades. Considerados o sexo forte, são na verdade seres
frágeis, pois só os frágeis controlam e agridem os outros. Agora, eles
produziram uma sociedade de consumo inumana, que usa o corpo
da mulher, e não sua inteligência, para divulgar seus produtos e
serviços, gerando um consumismo erótico. Esse sistema não tem por
objetivo produzir pessoas resolvidas, saudáveis e felizes; a ele
interessam as insatisfeitas consigo mesmas, pois quanto mais
ansiosas, mais consumistas se tornam.
Até crianças e adolescentes são vítimas dessa ditadura. Com
vergonha de sua imagem, angustiados, consomem cada vez mais produtos
em busca de fagulhas superficiais de prazer. A cada segundo
destrói-se a infância de uma criança no mundo e se assassina os
sonhos de um adolescente. Desejo que muitos deles possam ler
atentamente esta obra para poderem escapar da armadilha em que,
inconscientemente, correm o risco de ficar aprisionados.
Qualquer imposição de um padrão de beleza estereotipado
para alicerçar a auto-estima e o prazer diante da auto-imagem
produz um desastre no inconsciente, um grave adoecimento
emocional. Auto-estima é um estado de espírito, um oásis que deve
ser procurado no território da emoção. Cada mulher, homem,
adolescente e criança deveriam ter um caso de amor consigo
mesmos, um romance com a própria vida, pois todos possuem uma
beleza física e psíquica particular e única.
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